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Uma pomba entrou em meu apartamento. Seria ela portadora de boas notícias ou de toxoplasmose? Como minha vida não melhorou desde então, aposto na segunda hipótese.
Pousou primeiro na ponta da cama. Acho que ela estava menos espantada do que eu. Desliguei o ventilador com cuidado e voltei a observá-la. Depois de um tempo, cansada, começou a fechar os olhos e levantou uma das pernas. Pensei – Tem uma pomba dormindo em minha cama.
Quase desci para ir tomar uma cerveja enquanto ela descansava. Era uma visita inesperada, mas tratei-a como qualquer visita. Por pouco não perguntei se ela queria algo da rua. Por pouco, pois acabei não descendo. Era óbvio que eu não poderia deixar aquela inquilina tão a vontade.
Depois de ela ter descansado um pouco, resolvi que era hora de despachar a intrusa. Ela voou pra cima dos DVDs (pousou precisamente em cima de Um Estranho no Ninho, pá-dá-tz!), depois pra cima da luminária. E quando achei que ela fosse sair pela janela, acabou deitando em cima do suporte da persiana. Sacana. Tentei mais uma vez assustá-la e dessa vez foi pousar em um copo (foto). O dia estava realmente monótono até esse encontro inesperado, portanto tive paciência.
A pomba não queria sair de jeito nenhum. Apenas isso já me fez criar certa “empatia” pelo bicho, mas eu sabia que se não desse cabo do problema naquele instante, em dois minutos a pomba já teria um nome. Imbuído de determinação e crescente impaciência, consegui colocá-la pra fora, sem criar maiores traumas à Filomena. Digo, à pomba.
Claro que poderia ter sido mais esquisito. Se entrasse pela janela um ornitorrinco pendurado em balões de gás, certamente teria sido mais desconcertante. Mas ainda assim, acho que foi digno de nota.
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O que é o lugar em que vivemos se não nosso próprio espelho.
A Glória é deprimida. A Glória é decadente. Prostitutas aposentadas fumam seus últimos cigarros no bar. Pessoas que se perderam, perdendo a esperança de um dia serem resgatadas.
A Glória é uma ferida aberta. É o potencial se dissolvendo. Aqui aprendi a desamar, e o desamor nada mais é do que uma sutil vingança. O amor é leve e cambaleante, como uma pomba doente. O desamor, uma vacina dolorosa.
É um vacilo. É uma escolha. É o que há.
É um porre, mas é o meu porre. A Glória agora é o meu lar.
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Estou pensando em voltar ao mesmo bar e pedir um Hollywood.
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